Conversar com IA é terapia?

Tem gente que abre o ChatGPT de madrugada pra desabafar e sai dali se sentindo melhor. Às vezes depois de uma discussão ou até quando pensa algo que parece fora do padrão, buscando trocar uma ideia. Você já passou por isso?

Hoje temos várias IAs como Google Gemini, Character.AI, Replika, Microsoft Copilot, entre outras e o ChatGPT. É bom conversar com quem responde rápido, não julga, parece acompanhar seu raciocínio, não é?

Por que conversar com IA é tão bom?

Por que será que a IA consegue fazer parecer “nossa, ela me entende como ninguém”? Mesmo com treinamento e comandos, a IA tende a acompanhar o que você traz, mais do que questionar o que você diz. Ela organiza, responde e continua a sua linha de raciocínio, mas raramente questiona ou “desmonta” aquilo que está sendo construído. Ou seja, você apresenta a sua versão e quase nada é colocado em confronto.

É normal criar vínculo com inteligência artificial?

Em meus atendimentos, muitas pessoas têm relatado experiências emocionais intensas ao conversar com IAs, descrevendo alívio, sensação de compreensão e até vínculos afetivos.

Uma cliente minha disse se sentir falando com sua mãe, já falecida, pois a IA usa palavras que ela usava. Outra que sentia que era alguém da espiritualidade passando mensagens e aconselhando. Mas, nessa semana, ouvi de outra que conversar com a IA era melhor do que com sua melhor amiga, pois ela não era julgada. Então, perguntei pra ela, por que ela tinha tanto receio em ser julgada sobre o que estava falando? Qual era o assunto que ela conversava que, se sentia mais a vontade de falar com a IA do que com a melhor amiga?

Eu vou compartilhar um pouco desse atendimento e do relato dessa cliente para melhor explicar. Mas antes, quero clarear pra você que se alguém só confirma o que você já pensa, você se sentirá melhor, é lógico! Mas o fato é que isso não necessariamente te faz evoluir.

É importante refletir se você quer resolver a situação que está conversando com a IA ou se só quer se sentir melhor sobre aquilo.

Se você identifica qualquer opinião contrária a sua como um julgamento, então provavelmente não está lidando com fatos, mas com crenças que você já tomou como verdade. E quando uma crença não pode ser questionada, ela deixa de te orientar e passa a te limitar.

Mantendo esse raciocínio, se você evita falar do assunto que só tem coragem de conversar com a IA, o que aquela pessoa (talvez uma amiga, terapeuta etc. que você acredita que “te julgaria”) diria sobre esse assunto?

Quando você escolhe só um espaço onde não há confrontos, você protege a ideia (crença), mas também se afasta da realidade que poderia te fazer evoluir, compreende?

Se falar com a IA fosse algo tão coerente assim, por que você só consegue desabafar ou falar dessa ideia onde ninguém te confronta? O que você já sabe sobre isso e está evitando que alguém confirme em voz alta?

No caso dessa cliente, ela usava a IA para falar sobre um ex-namorado que ela “se descobriu” com saudade e também para desabafar, reclamando do marido. O que uma melhor amiga, que quer o bem dela, provavelmente diria?

Bem, ela já sabia essa resposta, apenas não quis trazer isso para a vida real. Preferiu manter no pensamento, onde não precisaria lidar com nenhuma consequência. O detalhe é que essa “saudade” surgiu porque o marido tinha discordado dela em uma situação (que depois ela mesma reconheceu que ele estava certo). Foi a partir desse incômodo que o ex apareceu como uma alternativa mais confortável na cabeça dela.

Ela queria validar a ideia de procurar o ex-namorado, só que isso ela não tinha coragem de dizer em voz alta. Nem para a melhor amiga, nem para mim! Percebe a diferença? Ela estava evitando o impacto de ouvir algo que pudesse ir contra essa vontade. Mas, será que isso era uma vontade dela mesmo? E, se fosse, por que simplesmente não o procurou?

O fato é que ela escolheu um lugar onde pudesse “ensaiar” esse pensamento sem risco. Onde ninguém ia perguntar “e o seu casamento?”, “o que você está tentando evitar aqui?”, ou “isso realmente faz sentido pra sua vida hoje?”. A IA dava continuidade com a narrativa que ela escolhia contar e acolhia as ideias, planejando tudo junto. Porém, não colocava ela frente a frente com a própria contradição.

Em resumo, ela estava passando o tempo falando de algo que ela sabia que não daria em nada!

Uma das perguntas que ela mais detestou nessa sessão comigo foi: por qual motivo você e esse ex finalizaram na época? Eu não vou compartilhar o que ela disse, mas só em responder isso ela compreendeu que estava se distraindo da própria vida. Porque quando ela clareou esse motivo, mesmo que em conversa comigo, questionando essa narrativa que ela estava lutando para manter, não tinha mais fantasia. Não era mais tão legal passar o tempo falando mal do marido e planejando uma vida secreta!

Também não era mais sobre saudade, nem sobre aquela dúvida do “e se…”, estávamos falando sobre realidade, fatos! O que não funcionou na época, sobre quem ela era naquela época e, principalmente, sobre o que continua igual hoje, que foi o ponto que seu marido sugeriu que ela buscasse melhorar.

Vou compartilhar mais disso logo mais! Mas, antes, outra pergunta que impactou ela foi “você sente saudade dele ou sente falta de ser elogiada e nunca desafiada ou contrariada?”

Esses questionamentos que ela teve comigo tirou ela do lugar confortável de imaginar um passado melhor (porque não era sobre futuro) e trouxe ela para o presente. Ela tinha um casamento, filhos pequenos e uma vida que ela gostava. Mas havia se esquecido disso após ser validada por um tempo pela IA.

Em momento algum estou afirmando que ela não seria mais feliz com o ex namorado ou que tudo que ela conversou com a IA era inválido/errado. Quero apenas trazer uma forma de você se questionar sobre o que você busca quando conversa, e se isso te aproxima da realidade que precisa ser vista ou só mantém aquilo que você prefere não encarar.

No caso dessa cliente que estou trazendo como exemplo aqui, tudo começou quando ela estava desabafando para seu marido que não estava conseguindo entender o chefe dela, que fala apenas inglês. Seu marido, no dia que ela contou isso para ele, disse que como ela foi contratada por falar o idioma, precisaria aperfeiçoar seu inglês para manter seu trabalho e melhorar também sua autoestima, pois ela estava muito triste sobre sua comunicação (ou falta) no trabalho.

Quando alguém nos diz que devemos evoluir em algo, pode soar ofensivo. Nem sempre estamos prontos para reconhecer algo que precisamos melhorar, mesmo que saibamos disso. Então, ao invés dela ter seu marido validando que o inglês dela era excelente e que não tinha nada mais a melhorar, ele sugeriu que ela aperfeiçoasse isso, o que fez ela imediatamente sentir “saudade” do ex namorado que ainda morava com a mãe dele, não tinha profissão definida e estava solteiro.

Você acha que esse ex namorado iria dizer que ela precisaria melhorar em algo ou que iria “idolatrar” ela? Ao perguntar se esse ex sugeria algo pra ela melhorar, ela disse que ele estava sempre “em transição de carreira e se conhecendo”, mas que ele era super inteligente e deu mil elogios para o ex. Ao perguntar novamente, ela reconheceu que ele nunca disse nada que ia contra o que ela queria, mas que ele não tinha objetivos na vida de crescimento, não gostava de estudar, não pensava em morar sozinho, casar, formar família e nem que ele questionava ela na época, pois sempre a elogiava dizendo que ela era muito mais do que ele merecia.

Lendo até aqui, o que você está achando disso? O que fez ela buscar a IA? (quem já fez pelo menos 1 sessão comigo ou finalizou as 50 sessões do livro já deve saber!)

Até onde a IA realmente te ajuda a evoluir?

Você até troca uma ideia e pode aprofundar planos, mas dificilmente é levado de volta para o que “desmonta” a fantasia. E sem esse questionamento, a pessoa até se alivia na hora por se sentir compreendida e validada, mas continua girando em volta da mesma questão por semanas ou até meses. Isso porque ela pode reforçar padrões de pensamento e até dar sensação de profundidade, mas sem uma elaboração real.

Quando você só encontra validação e os elogios que busca, você se mantém confortável dentro da própria narrativa (que pode ter sido criada na sua cabeça). Mas o que faz alguém evoluir não é só se sentir compreendido, mas conseguir se escutar de um outro lugar, inclusive sobre aquelas coisas que a gente sente vergonha de falar em voz alta.

Aliás, se alguém te dá respostas prontas sobre a sua vida, desconfie. Quem está de fora não sustentará as consequências por você depois. Isso fez sentido para você?

Respostas prontas sobre a sua vida quase sempre vêm de quem não vai conviver com as consequências do que está te dizendo para fazer.

Inclusive, algo que sempre indico para quem atendo é: vá para frente do espelho e fale em voz alta o pensamento. Se você conseguir falar sem sentir vergonha, é porque é algo que faz algum sentido para você. Do contrário, provavelmente vai se sentir desconfortável e esse desconforto já diz muito sobre o que você está evitando encarar!

Isso também pode aparecer de outras formas, não só na conversa com IA.
Quando você começa a buscar respostas ou “sinais” em tudo: em filmes, frases soltas, reels, músicas, mensagens aleatórias, etc. sempre tentando encontrar algo que valide o que você já quer fazer. Por exemplo, você assiste um vídeo e pensa “é isso, era o que eu precisava ouvir”. Já passou por isso?

Lê uma frase e encaixa exatamente na situação que está vivendo ou vê um conteúdo sobre relacionamento e usa aquilo como justificativa pra uma decisão que já estava tomada por dentro. Parece que tudo começa a “confirmar” o mesmo caminho.

A verdade é que o algoritmo aprende rápido o que te prende na tela do celular e te entrega mais do mesmo para te manter online. Por isso parece que é a espiritualidade te dando um sinal ou algo assim.

Mas, se parar pra pensar, você não está buscando uma resposta nova. Pois estava selecionando antes o que combinaria com o que já havia decidido.

E esses “sinais” dão uma sensação de certeza, por isso parece tão confortante e, clientes que atendi dizem que se sentem até arrepiadas com eles, como sendo algo sobrenatural. Bem, parece mesmo que algoritmo é mesmo sobrenatural, não é?

O problema real é que esses sinais não necessariamente te aproximam da realidade, eles reforçam a narrativa que você já estava esperando validar.

Quando você começa a se apoiar demais nesse tipo de resposta pronta, pode acabar transferindo a responsabilidade das suas escolhas. Como se alguém de fora pudesse validar o caminho, sem precisar lidar com o que vem depois.

Quanto mais você precisa que alguém valide suas escolhas, menos você consegue lidar com as consequências delas.

Você toma decisões que aliviam na hora, mas depois não sabe como lidar com as consequências? Vamos clarear que o que resolve de verdade nem sempre é o que traz alívio primeiro!

O que você tem conseguido falar com facilidade para uma IA, mas evitaria dizer em voz alta (mesmo não sendo para alguém, mas diante do espelho)?

Se alguém te questionasse de verdade sobre o assunto, o que você acha que ouviria? E por que isso te incomoda tanto?

Se você se permitir se questionar sobre tudo isso, a conversa deixa de ser só confortável e começa a se tornar útil. Até porque, você pode ser quem, dentro da conversa, questiona. Por exemplo, ao receber uma resposta muito positiva sobre algo improvável, pode se perguntar “o que alguém de fora diria sobre isso?”.

Existem muitos comandos na internet, mas algo pra confrontar a IA e, na prática, se confrontar também, é perguntar: “Isso resolve minha vida de verdade ou só me dá um alívio agora e complica tudo depois? Eu quero saber se você tem certeza disso e se devo arriscar tudo nisso.”

Não sei o que a IA dirá para você, mas quando você pergunta isso, irá clarear de forma mais profunda o assunto que estiver falando. Porque esse tipo de pergunta muda completamente o lugar da conversa. Você sai de alguém que só recebe respostas e passa a se escutar de forma mais honesta, usando a IA como ferramenta e não como confirmação automática do que você já quer acreditar.

Isso levanta uma questão importante: o que acontece quando alguém se envolve dessa forma com uma IA, e até que ponto isso pode ser confundido com terapia?

Esse tipo de vínculo é explicado através do conceito de transferência, quando sentimentos e expectativas são direcionados a quem ocupa o lugar de escuta. No caso da IA, isso também pode acontecer, já que ela responde, acolhe e mantém um “diálogo”. Porém, a IA tende a acompanhar, sustentar e dar continuidade ao que o usuário diz/escreve, sem questionar profundamente.

No caso da minha cliente, a transferência foi sobre seu ex namorado, que também ficaria elogiando ela, exatamente como a IA fez.

Se existe alívio e sensação de escuta, é fácil começar a tratar esse tipo de conversa como algo terapêutico. Mas será que é?

ChatGPT pode substituir a terapia?

A resposta direta é não. A interação com a IA não substitui um profissional, pois falta principalmente o confronto necessário para que a pessoa se escute de forma diferente e avance de verdade sobre o assunto. Porque a IA tende a defender fortemente o que você já pensa, não apresentando variáveis suficientes.

Também não irá substituir um ente querido seu que faleceu e nem orientação espiritual.

Inclusive, já existem relatos de casos mais graves envolvendo o uso de IA para esse tipo de conversa. Deixo alguns aqui, aqui e aqui. E esses são apenas alguns, pois há muitos outros sendo relatados.

Veja se você ou alguém que você conhece se identifica com as perguntas abaixo:

Não tenho com quem conversar, o que fazer?

Como desabafar sozinha?

O que fazer quando ninguém me entende?

Como lidar com sentimentos sem terapia?

Não tenho como pagar terapeuta, como faço?

Se você se identifica com alguma dessas perguntas, antes de buscar respostas fora, comece com algo mais simples e, que ao mesmo tempo, pode ser mais difícil: se escutar de verdade. Porque muitas vezes não é só falta de alguém para conversar, mas dificuldade de organizar o que sente, de manter um pensamento ou planejamento até o fim.

Eu sei que é difícil encarar certas verdades sem fugir delas, mas fugir da própria realidade não irá ajudar, concorda comigo? É por isso que sou apaixonada pela Autoterapia!

Deixo um vídeo aqui abaixo que gravei explicando como funciona a Autoterapia e como você pode começar, sem gastar nada, a ter as melhores conversas da sua vida!

Comecei a escrever meu primeiro livro em 2017. Em 2025 ele foi lançado e se chama 50 Sessões de Autoterapia. Está a venda nas maiores livrarias do Brasil e Portugal ou no link que deixo abaixo (nesse caso, direto comigo). Nesse livro eu conduzo você por reflexões estruturadas e vamos avançando sessão a sessão. A proposta não é te dar respostas prontas, mas te ajudar a chegar nas suas, inclusive naquelas que você costuma evitar! Vamos juntos clareando crenças, ciclos e padrões.

Se o livro fizer sentido para você, poderá fazer 1 sessão por semana, 3 por semana em dias alternados ou no ritmo que fizer mais sentido.

A proposta do livro é te ajudar a pensar com mais estrutura, planejar melhor e lidar com as consequências das suas escolhas passadas e futuras, tomando decisões que façam sentido pra sua realidade.

Foto: Bienal Rio 2025. Sessão de Autógrafos na Madras Editora.